Dr. Eduardo F. Motti
Sócio Gestor da Consultoria Trials & Training
O que medicamentos e automóveis, tão diferentes na forma e no conteúdo, têm em comum? Vejamos: Carros e remédios demoram anos entre a criação do primeiro conceito e a efetiva transformação em um produto viável. Ambos consomem somas astronômicas de dinheiro em seu desenvolvimento, envolvem exércitos de profissionais de múltiplas aptidões, e estão associados a riscos que podem levar seus fabricantes ao céu ou ao inferno.
Quem compra uma caixinha de remédio está levando para casa não um produto único, mas uma reunião de centenas de componentes, que interagem continuamente entre si de forma única.
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No caso do automóvel, cada componente é desenhada de forma única, mas pensando no conjunto total. Isso muitas vezes passa despercebido do usuário. Assim, por exemplo, é preciso desenhar e testar desde os limpadores do pára-brisa até o fecho da tampa do porta-malas, além do motor, suspensão, câmbio, etc. Sem falar no design, que impacta inicialmente o consumidor.
No caso dos medicamentos, desde sua concepção (descoberta de uma nova molécula), até a caixinha na farmácia, há também milhares de processos a definir e completar – os testes em bancadas de laboratório, depois em animais de experimentação (sim, infelizmente, ainda são necessários, embora cada vez menos) até chegar a testes em humanos. Cada teste sem sucesso leva a um retorno e a etapa anterior tem de ser refeita.
Há também outro lado menos conhecido: a definição de uma formulação que permita que a molécula permaneça estável e exerça sua ação no organismo; nela são definidos os excipientes químicos, sem atividade no organismo humano (idealmente). Depois a definição da forma farmacêutica – comprimido, pílula, solução, suspensão, etc. A definição da embalagem primária– vidro, blister da caixa, chamada de embalagem secundária e sua estabilidade na prateleira.
Em paralelo, os processos de produção precisam permitir que o produto feito inicialmente em miligramas seja produzido de forma viável em quilos ou até toneladas com a mesma qualidade. No final, a fábrica vai produzir não milhares de unidades como nos automóveis, mas bilhões!
Quem compra um carro ou uma caixinha de remédio está levando para casa não um produto único, mas uma reunião de componentes escolhidos por características de desempenho, durabilidade, segurança etc. Muitos são protegidos por patentes para evitar cópias de concorrentes e proteger a inovação. O produto final, após os extensivos testes, pode ser apresentado ao público. Sucesso ou fracasso será determinado pelo consumidor apenas após alguns anos no mercado.
Carros e remédios têm mais em comum do que pode parecer.

