Por Dr. Eduardo F. Motti, Sócio Gestor da Consultoria Trials & Training
Não, este não é mais um artigo lamentando as dificuldades da pesquisa clínica no Brasil, mas sim sobre as fases da pesquisa clínica, como elas se comportam e como importam para o país.
Todo novo medicamento, depois de passar por testes de laboratório e em animais (sim, ainda são necessários, infelizmente), vai para os testes em humanos. Assim é a pesquisa clínica. Ela sempre é feita em fases, por várias razões. A primeira é a preocupação com a segurança dos participantes no uso de uma substância ainda pouco conhecida. A segunda é a necessidade de saber como a nova droga se comporta no organismo humano, nem sempre semelhante aos dos animais de experimentação. A terceira é a capacidade de produção da nova droga, que no início é apenas de pequenas quantidades (miligramas). A quarta é o investimento necessário, da ordem de alguns milhões de dólares, só para os estudos iniciais.
Mais da metade das drogas que começam a primeira fase clínica não avança, por isso é importante ir com calma. As fases da pesquisa clínica têm nomes muito originais: 1, 2, 3 e 4. Quem já as conhece, pode pular os próximos quatro parágrafos.
Na fase 1, estudamos o comportamento da nova droga em voluntários sadios (exceto no caso de drogas sabidamente tóxicas, como algumas contra o câncer). São realizados sempre com cuidados rigorosos quanto ao aparecimento de efeitos adversos. Na fase 1, são realizados cerca de cinco a 10 estudos, cada um com objetivos específicos e envolvendo apenas algumas dezenas de pessoas.
Na fase 2, com as informações adquiridas na fase 1, vamos conhecer o efeito da droga em indivíduos com a doença a ser tratada. Como se dá o efeito terapêutico? Como ele pode ser observado? Quais são os efeitos adversos? Qual a melhor dose? São muitas as perguntas. São feitos cerca de três a seis estudos nessa fase, com algumas centenas de pessoas, para obter uma decisão de prosseguir para a fase 3 ou não.
A fase 3 é quando confirmamos os efeitos benéficos da nova droga, a melhor dose, a frequência e gravidade dos efeitos adversos mais comuns e as interações com outros tratamentos concomitantes. Os estudos de fase 3 abrangem milhares de pacientes, em alguns casos até dezenas de milhares de pacientes, e os resultados desses estudos devem levar à aprovação da nova droga para uso comercial. Para chegar aqui são necessários investimentos extremamente elevados, da ordem de bilhão de dólares. Não é para qualquer empresa e, muitas vezes, várias se associam para conseguir bancar os gastos.
A fase 4 é realizada após o registro da nova droga, para confirmar aspectos de segurança, o uso em populações especiais, alternativas de dose e uso concomitante com outros medicamentos.
O Brasil participa principalmente dos estudos de fase 3, porque são os mais longos, realizados em muitos países e que precisam de muitos pacientes com diversidade genética. São também extremamente custosos, podendo chegar a centenas de milhões de dólares e, muito bem controlados.
Há uma ideia corrente no Brasil de que não podemos ficar reféns apenas dos estudos de fase 3, pois eles vêm prontos de fora e apenas são implementados aqui. É verdade, mas para ampliarmos o espectro de estudos precisamos criar as condições necessárias para que as empresas farmacêuticas, nacionais e multinacionais, vejam vantagens em trazer seus estudos para cá. Quais são essas condições?
Para estudos de fase 1, precisamos de unidades especializadas de farmacologia clínica com reconhecimento internacional, equipamentos analíticos de ponta, pessoal capacitado e, principalmente, prazos de aprovação e implementação muito curtos e que acomodem as mudanças feitas a todo momento durante o estudo. A fase 1 geralmente é uma receita de bolo, não tem tanta inovação. As unidades que fazem esses estudos só se sustentam se tiverem bastante movimento. O Brasil está longe de ser competitivo e há pouca esperança de que cheguemos lá.
Na fase 2 é quando acontece a maior inovação, com grande aporte de informações científicas e clínicas. Os estudos devem permitir uma conclusão segura, que permita ao fabricante investir na caríssima fase 3. Aqui é crítica a velocidade dos estudos e a qualidade operacional. É quando mais se aprende sobre a doença e a nova droga. Os centros selecionados para esses estudos devem ter capacidade de recrutar pacientes rapidamente e oferecer cuidados ótimos, o que acontece em muitos centros brasileiros. Precisam também de um sistema regulatório e de logística ágeis e prontos, itens em que precisamos progredir bastante. O Brasil tem muito potencial para crescer em estudos de fase 2, mas há muito a fazer. Não é esbravejando por aí que a situação muda.
As fases 3 e 4 se apoiam no conhecimento gerado nas fases anteriores. Sua importância para o Brasil está na criação e movimentação dos centros de pesquisa, na formação de recursos humanos, no acesso da população a novos tratamentos, além do grande aporte de recursos financeiros aos centros de pesquisa e empresas de serviços.
A ANVISA aprova cerca de 300 novos estudos por ano. Destes, 59% são de fase 3 e 20% de fase 2*. Temos potencial para fazer muito mais, mas só conseguiremos com muito esforço e competência e engajamento de todos, principalmente dos órgãos de aprovação.
*RELATÓRIO ANUAL DE ATIVIDADES 2022 COORDENAÇÃO DE PESQUISA CLÍNICA EM MEDICAMENTOS E PRODUTOS BIOLÓGICOS – COPEC. Disponível em https://www.gov.br/anvisa/pt-br.

